Precificação na Reforma Tributária: sua empresa vai ter dois preços
Hoje, quando você vende por R$ 100, o imposto está escondido dentro desse valor — uma fatia dos R$ 100 é ICMS, ISS, PIS e COFINS. Na Reforma Tributária, o IBS e a CBS passam a vir por fora, destacados na nota, como acontece nos países que usam IVA. E isso cria uma situação nova para quem forma preço: sua empresa passa a ter dois preços ao mesmo tempo.
Preço BASE = o que a empresa recebe · Preço CHEIO = base + IBS/CBS, o que o cliente vê na nota
Quem não entender essa separação corre dois riscos opostos: achar que encareceu (olhando o preço cheio) ou comer a própria margem (esquecendo que o imposto por fora não é receita). Neste artigo mostramos, com números, como formar preço nos dois mundos.
O erro clássico: somar a margem em cima do custo
Muita empresa forma preço assim: custo R$ 100 + 30% de margem = R$ 130. O problema é que o imposto incide sobre o preço, não sobre o custo — então a margem que sobra de verdade é bem menor que os 30% planejados. A conta certa é o markup divisor:
preço = custo ÷ ( 1 − (tributos por dentro + despesas + margem) )
Exemplo de hoje, uma empresa do Simples com DAS de 8%, despesas de 10% e margem desejada de 30% (valores ilustrativos):
| Custo do produto | R$ 100,00 |
| Percentuais por dentro (8% + 10% + 30%) | 48% |
| Preço de venda: 100 ÷ (1 − 0,48) | R$ 192,31 |
| Prova: 192,31 − DAS 15,38 − despesas 19,23 − custo 100 | R$ 57,69 = 30% ✓ |
A margem se garante depois do imposto — nunca antes. Isso vale hoje e continua valendo na Reforma. O que muda é onde o imposto entra na conta.
Na Reforma: o markup fica limpo e o imposto vira uma linha por fora
Para quem estiver no regime regular de IBS/CBS (cenário 2033, sistema completo), o imposto sai de dentro do markup. Só despesas e margem ficam por dentro — e o IBS/CBS é somado por cima, destacado:
| Custo do produto (despesas 10%, margem 30%) | R$ 100,00 |
| Preço BASE: 100 ÷ (1 − 0,40) — o que a empresa recebe | R$ 166,67 |
| IBS/CBS por fora (alíquota de referência ~26,5%, ilustrativa) | R$ 44,17 |
| Preço CHEIO: o que o cliente vê na nota | R$ 210,84 |
O preço base é o seu caixa. O preço cheio é o do consumidor. São dois números diferentes para a mesma venda — e cada decisão da empresa deve olhar para o número certo.
E o custo também muda: no regime regular, o IBS/CBS pago nas compras vira crédito integral, então o custo real do produto tende a cair para o preço sem tributo. Explicamos essa outra metade da conta no artigo Como Comprar na Reforma Tributária.
Quem vende para empresa vai competir de "preço limpo"
Aqui está a consequência estratégica: o comprador empresarial que aproveita crédito recupera o IBS/CBS da nota. Para ele, o que importa é o seu preço sem o imposto — o preço base. Vender B2B fica parecido com competir de preço limpo, todo mundo comparado na mesma régua.
Já o consumidor final não recupera nada: para ele, o preço é o cheio. Por isso a mesma empresa pode precisar de duas políticas de preço — uma pensada para o cliente CNPJ (que enxerga o base) e outra para o cliente CPF (que enxerga o cheio).
E quem é do Simples Nacional?
O Simples ganhou uma escolha própria, semestral e irretratável:
- Simples puro — IBS/CBS continua dentro do DAS. A guia é única e o caixa fica preservado, mas o crédito que você transfere ao comprador é pequeno — e o IBS/CBS das suas compras vira custo, porque você não credita.
- Simples híbrido — IBS/CBS por fora, como no regime regular. Você passa a gerar crédito integral para quem compra de você e aproveita o crédito das suas próprias compras.
| Para quem você vende | Tendência |
|---|---|
| Consumidor final / pessoa física (B2C) — pizzaria, varejo, food service | Simples PURO |
| Empresas do regime regular que exigem crédito (B2B) — indústria, distribuição | avaliar o HÍBRIDO |
Quem vende B2C tende ao puro: o consumidor não usa crédito, então virar híbrido não traz vantagem. Quem vende para CNPJ precisa fazer a conta — perder o crédito do cliente é perder competitividade exatamente na comparação de "preço limpo" que descrevemos acima.
O tempo que você tem
- 2026 — ano de teste: IBS/CBS aparece na nota, sem cobrança efetiva.
- 2027 — CBS entra pra valer; PIS/COFINS e IPI acabam.
- 2029 a 2032 — ICMS/ISS diminuem ano a ano; IBS sobe na mesma medida. Na transição, os dois sistemas convivem e a formação de preço tem mais passos.
- 2033 — sistema novo completo: só IBS/CBS.
O que fazer agora
- Confira suas notas de 2026. O IBS/CBS informativo já deve aparecer — é o ensaio geral, sem custo de errar.
- Descubra o custo líquido de cada produto (nota menos créditos). É ele que muda com a Reforma, não o valor da nota.
- Reveja a formação de preço pelo markup divisor. Margem se garante depois do imposto, nunca antes.
- Separe mentalmente preço base e preço cheio nas suas projeções: receita e caixa são o base; comunicação com o cliente final é o cheio.
- Se você é do Simples e vende para empresas, faça a conta do puro × híbrido antes da primeira janela de escolha — ela é semestral e irretratável.
Perguntas frequentes
Meu preço vai subir com a Reforma?
Não necessariamente. O preço cheio pode parecer maior porque o imposto fica visível, mas o seu custo também muda (créditos mais amplos nas compras). O resultado final depende do seu regime, do regime dos seus fornecedores e do perfil dos seus clientes — por isso a análise é produto a produto, não uma regra geral.
Se o imposto é por fora, posso simplesmente manter meu preço de hoje?
Cuidado: manter o preço de hoje como "preço cheio" significa absorver o IBS/CBS dentro dele — sua margem cai. Manter como "preço base" significa repassar o imposto inteiro — o cliente final vê aumento. O ponto de equilíbrio real quase sempre fica no meio, porque seus custos também caem com os créditos. É essa conta que o markup divisor resolve.
Sou do Simples e só vendo para consumidor final. Preciso me preocupar?
Com a escolha puro × híbrido, provavelmente não — o puro tende a ser o seu caminho. Mas o seu custo de compra muda mesmo assim: no Simples puro, o IBS/CBS destacado pelo fornecedor vira custo seu. Comprar bem (de quem, e com qual destaque) passa a ser decisão estratégica.
Como sei qual alíquota usar nas simulações?
A alíquota definitiva de referência será fixada por resolução — os números deste artigo são ilustrativos (~26,5% é a estimativa oficial usada nos estudos do Ministério da Fazenda). Para decidir preço, o mais importante não é acertar a alíquota exata, e sim montar a mecânica certa: custo líquido, markup divisor e imposto por fora.
Receba o Checklist Fiscal gratuito por e-mail
Os 10 erros que fazem pequenas empresas pagarem imposto a mais — material prático da FinanServ Sul, sem spam.
Quer saber o preço de equilíbrio dos seus produtos na Reforma?
A FinanServ Sul roda o diagnóstico de custos e preços com os seus dados reais: custo hoje × Reforma produto a produto, preço de equilíbrio e a simulação Simples puro × híbrido.
Falar com um especialista